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Streaming Estatal?

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O lançamento da plataforma de streaming governamental Tela Brasil, em pleno

primeiro trimestre de 2026, traz à tona um debate que muitos de nós, que participamos

da gênese da ANCINE e da construção de mecanismos de mercado, acreditávamos estar consolidado: o papel do Estado como indutor e não como executor direto. Ao analisar

este movimento sob a ótica da MP 2228-1, percebe-se um preocupante desvio de

finalidade. A essência daquela medida provisória foi justamente superar o modelo

centralizador da era Embrafilme, estabelecendo que o Estado deve fomentar, regular e fiscalizar, garantindo que a indústria audiovisual brasileira tenha fôlego para competir em um mercado globalizado. Quando o governo decide criar seu próprio canal de exibição de obras contemporâneas, ele rompe esse paradigma e passa a atuar como um competidor direto da iniciativa privada, muitas vezes de forma desleal, já que opera sem as pressões de sustentabilidade econômica que sufocam os produtores e plataformas nacionais.

É fundamental, contudo, fazer uma distinção clara entre o que é saudável e o que é

predatório nessa iniciativa. A difusão de acervos históricos, como os da Cinemateca

Brasileira e do CTAv, não é apenas positiva, é uma obrigação do Estado. Promover o

acesso gratuito a clássicos e patrimônios que estão fora do circuito comercial é uma

extensão legítima das políticas de preservação e memória. O erro estratégico e regulatório não está em abrir os arquivos da nossa história, mas em transformar essa

infraestrutura em uma janela para produções recentes que deveriam estar cumprindo seu

ciclo comercial. Enquanto a difusão do acervo é fomento cultural puro, o streaming

governamental de obras com potencial de mercado drena recursos que poderiam estar

no Fundo Setorial do Audiovisual para financiar novas produções. Além disso, no

momento em que discutimos a regulação do VOD e as obrigações das Big Techs, a

existência de uma "solução estatal gratuita" enfraquece a nossa posição de negociação,

dando munição para que players estrangeiros questionem a necessidade de cotas e

investimentos obrigatórios.

O audiovisual brasileiro precisa de um Estado que garanta a competitividade e a

circulação de obras em todas as janelas, respeitando a lógica econômica de cada uma

delas. Ao tentar mimetizar o mercado, o governo acaba gerando uma percepção

distorcida de valor no público, prejudicando a bilheteria e a monetização de quem

realmente faz o cinema acontecer. Precisamos retomar o espírito da MP 2228-1 e

entender que a soberania cultural não se constrói com o governo sendo o dono da

plataforma, mas com um ambiente regulatório forte que permita ao produtor

independente ser o protagonista do seu próprio negócio. O Estado deve ser o

combustível para a indústria, garantindo a memória e a justiça nas regras do jogo, sem

nunca tentar ser o dono do estádio e o juiz ao mesmo tempo.

Vera Zaverucha


 
 
 

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SOBRE A VERA 

Com mais de 30 anos de experiência na área pública, Vera ocupou diferentes cargos nas principais instituições responsáveis pelas políticas públicas para o audiovisual e pelo financiamento do setor cinematográfico no Brasil
De forma didática e clara,
Vera consegue aproximar o conteúdo para diferentes públicos e ajudar aqueles que buscam se reciclar ou querem conhecer mais sobre a área. 

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