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STREAMING E A NECESSIDADE DE REGULAR

Vera Zaverucha

Foto Mike Doner


A indústria audiovisual faz parte da indústria criativa e que em seu formato digital é hoje entendida como atividade fundamental para o desenvolvimento econômico das diversos nações que, mundo afora, já adotaram medidas protecionistas às indústrias locais.

Apesar da indústria do audiovisual no Brasil já dispor de diversos mecanismos de apoio e financiamento ao setor como um todo, ainda não tem um ambiente regulatório estável, que impeça que os grandes oligopólios pratiquem uma ocupação do mercado selvagem e excludente, como vem sendo feito, ferindo, de certa maneira, o que está instituído pela nossa Constituição

Hoje, as discussões em torno do vídeo por demanda, mais parecem as discussões mantidas durante 5 anos no Congresso Nacional até que se conseguisse, finalmente, a Lei 12.485/2011- lei da TV paga, 15 anos depois das Tvs por assinatura terem chegado ao nosso País. E os lobbies naquele momento, no Congresso Nacional, funcionaram muito também.

Mas muita coisa melhorou com a Lei 12.485 - Lei da TV paga, ao criar cotas para conteúdos brasileiros e brasileiros independentes nos canais e pacotes oferecidos aos assinantes de TV por assinatura e ao incrementar os recursos do FUNDO SETORIAL DO AUDIOVISUAL com a criação da CONDECINE TELES, em cerca de R$ 1,2 bilhão/ano, abriu-se uma nova perspectiva para o Brasil se firmar como produtor mundial de conteúdo.

A Lei 12.485/2011 aponta para o fortalecimento das produtoras independentes servindo como indutora para a associação destas produtoras com emissoras e programadoras de TV. Induz a criação de novas programadoras brasileiras, dando atenção aos arranjos produtivos locais e regionais.

AGORA TEMOS UMA OUTRA MÍDIA

1) O Streaming, que após a pandemia se expandiu de uma forma tão rápida que tem atraído a entrada de diferentes tipos de players no mercado.

2) Tanto os grupos econômicos fortes de outros segmentos de mercado, que passaram a ofertar serviços no VoD (como as telecomunicações, ou grupos de TV) quanto grupos pequenos e independentes.

3) No Brasil, as operações no mercado audiovisual de hoje já se encontram na casa dos bilhões. Segundo o SICAv o audiovisual gera quase R$ 9 bilhões em tributos anuais; É responsável por mais de 300 mil empregos; Representa 0,5% do PIB nacional: Adiciona quase R$ 27 bilhões anuais à economia do país; Mais de 12.500 empresas em atividade na produção, distribuição e exibição; Paga um salário médio 60% acima da média nacional;129 instituições de ensino no país formam profissionais para o setor; Seus gastos irrigam 68 diferentes setores da Economia, incluindo turismo, aluguéis, transportes, segurança, alimentação!

4) Somos 17 milhões de assinantes de TV por assinatura, e 72 milhões de domicílios com tv. Este é o mel do nosso mercado. Se considerarmos a exclusão atual de boa fatia da sociedade que, com o 5 G, terá maior facilidade de acesso a conteúdos audiovisuais, falaremos de um mercado potencialmente muito maior.

5) Com a chegada do 5G, a velocidade de comunicação anunciada permitirá muito mais rapidez na conexão entre pessoas, negócios, enfim, no mundo.

6) Forte consumidor, o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de assinantes da Netflix em todo o mundo. A plataforma, conta com 17,9 milhões de usuários ativos

7) "A receita estimada para o segundo trimestre de 2020 no país era de US$ 432 milhões. "Somos 177 milhões de pessoas que deverão ser assinantes de internet móvel no país e 77% da utilização de dados deverá ser direcionada para assistir vídeos online.

8) O Consumo de dados em dispositivos móveis é de 7 trilhões de megabytes em 2016 e deverá chegar a 24 trilhões de megabytes em 2022.

9) Com o 5G para baixar um filme de longa metragem serão necessários apenas 3,7 segundos. Com a oferta maciça de conteúdo, haverá uma rápida saturação, se ele não for muito diversificado. Esta é a chave. E assim creio que a oferta poderá ser muita, mas a originalidade é que será valorizada. O diferente, o exótico, o outro, o diferente de mim.

10) Se hoje já não temos fronteiras para que os produtos audiovisuais circulem, apenas as tecnológicas, amanhã elas já não existirão.

11) Trata-se de conquistar espaço num mercado altamente concentrado e que o Brasil tem plena capacidade para tal. Em qualquer área da criação ou da tecnologia. Temos ilhas de excelência nas artes e na tecnologia. Com escolas se proliferando. E aí vêm todas as possibilidades e oportunidades para os jovens, inquietos e criativos por natureza. Se lhes dermos chão.

O QUE SERÁ ESSE FUTURO?

O MUNDO EM 10 ANOS SERÁ OUTRO MUNDO.

1) Um mundo mais cheio de ócio? Um mundo conectado e buscando mais e mais informações? Mas as informações estarão disponíveis de que forma? Holografias? Pitágoras me explicando seu teorema. Chopin tocando seu piano. Beatles, de novo juntos, cantando no show que eu produzi para meus amigos.

2) Imagens de todas as formas. No mundo da tecnologia, nas telecomunicações, na robótica e na produção de conteúdos, que ocuparão cada vez mais as frequências do 5G.

ONDE ESTARÃO OS EMPREGOS?

3) Talvez um dos piores problemas do mundo seja o desemprego. Hoje, sem pensar muito, já podemos prever que a maior parte dos empregos do futuro estarão ligados de alguma forma à tecnologia ou à produção de narrativas capazes de alimentar todas as áreas do futuro ócio das populações.

4) Juntamente ao conhecimento técnico, a criatividade é um ativo valioso, capaz de gerar a tão desejada diferenciação – relevante em momentos de instabilidade.

5) Uma das questões então que podemos nos colocar é: Como ocupar este mercado? Como enfrentar a indústria norte americana, hegemônica no mundo quase inteiro. Como preservar o espaço do Brasil neste mercado digital. Como estar dentro do ranking daqueles países que ocupam este majoritariamente esse mercado?

6) Por meio da educação, da leitura, do estímulo à criatividade!

7) Com cada vez mais tecnologia, mais tempo livre. O desafio será o que fazer com ele. E acredito que somente a criação será capaz de ocupar este novo ser humano do século XXI.

AS TENDÊNCIAS PARA 2030

1) As pessoas viverão mais e o mundo terá 8 bilhões de habitantes. Um bilhão de cérebros a mais para criar soluções. Os nativos digitais surgem, sem fronteiras, que querem gozar sem necessariamente ter e que não se atrelam ao trabalho formal. Nanotecnologia e robótica levarão a uma perda consistente de postos de trabalho, que não serão repostos. Nos países desenvolvidos, 25% dos empregados serão operacionais; 25% administrativos (tarefas executivas-intelectuais); e 50% realizarão atividades criativas. A invasão das tecnologias não vai suplantar a criatividade humana.

2) A produção do saber será feita por muitos e transmitida para muitos. E isto não é otimismo utópico; é projeção de mercado.

3) Desta forma é preciso estarmos atentos pois no nosso Brasil até agora, estes oligopólios audiovisuais que aqui chegam estão ocupando nosso mercado sem qualquer regulação.

4) Com a entrada do VoD, os grandes conglomerados de mídia tendem a dominar os direitos sobre a produção de obras com nossos talentos e histórias que são produzidas por nossas produtoras independentes como meras prestadoras de serviços. Chegam em nosso mercado para produzir, mas desde que a bíblia deles seja seguida. O roteiro aprovado, os estúdios pré-determinados, a fotografia marcada, enfim um rapto de nossos talentos, assim como são raptados nossos cientistas. A ideia é sua, mas o negócio é deles.

5) Uma das grandes conquistas que tivemos no modelo de financiamento até aqui foi a garantia dos direitos de propriedade sobre a obra e sobre sua comercialização. A formação de um catálogo de obras da produtora que se tornam ativos, num mundo onde podemos dizer que será o de “consumir e assistir”. Num mundo onde cada vez mais precisaremos de conteúdos novos e diferenciados. Num mundo onde a diversidade será o que mais atrairá os assinantes.

6) Ao contrário dos canais de TV por assinatura, que foram se especializando, e virando quase que guetos para determinados conteúdos, no VoD o sucesso se dará justo pelo caminho contrário. O da necessidade de originalidade e diversidade.

CONCLUSÃO

somos um país continental, que desperta a curiosidade do mundo por sua enorme diversidade. Hoje, com o vídeo por demanda, o consumidor passou a valer na escolha. Se na TV por assinatura o assinante tem o poder do controle remoto, no VoD ele tem um poder muito maior, que é o de nem te ver.

A regulação do Vídeo por Demanda é uma das prioridades que deve estar no foco do Congresso Nacional e do Governo. Diminuir as assimetrias regulatórias entre os diversos setores da exibição audiovisual (cinema, Tv paga e VOD), levando em consideração também a grande assimetria entre os grandes oligopólios estrangeiros e as produtoras de conteúdo locais, usadas atualmente como meros prestadores de serviço, e como já dito acima sem direitos de propriedade sobre as obras. Uma regulação que crie obrigatoriedade de investimento na produção independente, com pagamento da contribuição como todas as demais mídias e com a proeminência de nossas obras no nosso próprio mercado.

Quanto a diversidade, num País tão plural como a nosso, deve ser vista como fator de desenvolvimento da cidadania e da integração cada vez maior do País. Desta forma acredito que uma política inclusiva no audiovisual é determinante para que nos conheçamos, mas também que o mundo nos conheça como nação rica culturalmente e por isso plural, democrático, com amplas possibilidades de investimentos em todos os campos.



Vera Zaverucha


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SOBRE A VERA 

Com mais de 30 anos de experiência na área pública, Vera ocupou diferentes cargos nas principais instituições responsáveis pelas políticas públicas para o audiovisual e pelo financiamento do setor cinematográfico no Brasil
De forma didática e clara,
Vera consegue aproximar o conteúdo para diferentes públicos e ajudar aqueles que buscam se reciclar ou querem conhecer mais sobre a área. 

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