Por que a propriedade da obra é a nossa maior riqueza
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Publicado na Telaviva
A manutenção da propriedade das obras audiovisuais em mãos de empresas brasileiras é, antes de tudo, uma questão de sobrevivência econômica e soberania cultural. No cenário global contemporâneo, a riqueza de uma nação não se mede apenas por commodities, mas pela posse de ativos intelectuais. Quando uma produtora nacional renuncia à titularidade de uma obra em favor de grandes conglomerados estrangeiros, ela aceita um papel de mera prestadora de serviços, trocando um patrimônio perpétuo por um pagamento único. Esse modelo de "obra por encomenda" drena o valor estratégico do país, pois todos os ganhos futuros com licenciamentos, remakes e novas janelas de exibição atravessam a fronteira, deixando de alimentar a nossa própria cadeia produtiva.
Diferente de outros setores, o audiovisual possui a capacidade única de projetar a imagem de um país, o chamado soft power. Países como a Coreia do Sul demonstraram que reter a propriedade do conteúdo é o que permite transformar o sucesso cultural em um motor robusto do Produto Interno Bruto. Quando a obra pertence a uma empresa brasileira, o lucro gerado em Tóquio ou Paris retorna para o Brasil, permitindo que a produtora se capitalize e invista em novos projetos de forma independente. Sem essa autonomia, o Brasil corre o risco de se tornar apenas um cenário exótico para narrativas moldadas por algoritmos externos que, muitas vezes, reduzem nossa complexidade a estereótipos comerciais para o consumo global.
Além do aspecto puramente comercial, existe a dimensão do que podemos chamar de estoque de conhecimento. O audiovisual brasileiro é o registro vivo da nossa memória e diversidade. Se a propriedade dessas obras cai nas mãos de grupos cujos interesses são estritamente ditados pela métrica de engajamento imediato, corremos o risco de ver partes fundamentais da nossa história sendo "apagadas" ou engavetadas por não atingirem metas de audiência em outros continentes. Manter a propriedade em mãos nacionais garante que esse acervo permaneça acessível e preservado, funcionando como um patrimônio social que não se extingue após o fim da sua carreira comercial. A verdadeira independência de uma indústria cinematográfica e televisiva não reside apenas na capacidade de filmar, mas na autoridade de ser dona do que produz, garantindo que o talento nacional gere riqueza e memória dentro de casa.
Vera Zaverucha


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