A culpa é da dona Odete.


A vida inteira que estive no serviço público ouvi de procuradores, de auditores e de chefes da área de prestação de contas que, a culpa de toda a burocracia criada nos órgãos do executivo, é do TCU.

Na verdade, sempre soube que não. Que a culpa era da dona Odete. A dona Odete desconfia muito de todos. Ela não tem confiança naquela atividade que ela está ali, para fomentar e ajudar a desenvolver.

A dona Odete, por exemplo não pauta suas decisões levando em consideração algumas questões, como por exemplo, que:

O amadurecimento só acontece a partir de um processo. Ninguém amadurece de um momento para o outro. E assim foi o que aconteceu ao longo dos anos com todos os setores da economia. Alguns mais tardiamente que outros. Mas todos os setores a partir da facilidade de fornecer e obter informações passaram a ter que se adequar, amadurecendo seus controles e formas de gestão. Atualmente até em compliance se fala.

Mas a dona Odete nunca se satisfez. E foi criando desconfianças e normas. Normas e desconfianças. Sempre dizendo que a culpa é do TCU.

A dona Odete, com certeza, não levou em consideração que a regulamentação não apenas tem que ser na justa medida para que o setor não seja sufocado, mas que também não se perca a perspectiva da necessidade de prestar contas, mas abandonando a paranoia de que vão roubar o Estado. Aliás a dona Odete de tanto criar o controle, acabou ela mesma sendo sufocada na sua mesa cheia de papeis e cobranças do TCU.

Mas se a culpa era do TCU e eu criei todas as regras por conta do TCU, diz dona Odete, como posso eu agora estar aqui sufocada e ainda sendo acusada?

Dona Odete...? será que não seria aceitável esquecer as pequenas despesas, taxis, estacionamento, sanduiches, papelaria para se dar foco às grandes despesas, com os grandes prestadores de serviços ou de grandes despesas de equipamentos, elétrica, maquinaria, hospedagem, etc... Será que não teria sido melhor deixar que cada órgão faça o controle que lhe é de atribuição.Ex Ministerio do Trabalho deve fiscalizar as relações entre empregado e patrão, a Receita Federal dos tributos, a Ancine dos gastos de produção da obra?

A senhora, dona Odete, sabe que os produtores hoje, para conseguirem ter um projeto com suas contas aprovadas, preenchem planilhas infindáveis, e são questionados por R$ 5,00? Ou por um ponto errado no CPF que está ali anotado na planilha. São punidos os produtores por fazerem tudo e a agência, dona Odete, não dá conta das regras que ela mesma impôs para o setor. E o pior que a dona Odete dá prazos para ela que ela não cumpre. Mas exige com rigor os prazos daqueles que estão ali, tentando fazer tudo certinho.

Fui testemunha de tudo isto, é verdade. E sempre me diziam que a culpa era do TCU. Hoje vejo como fui enganada. A culpa mesmo é da dona Odete.

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SOBRE A VERA 

Com mais de 30 anos de experiência na área pública, Vera ocupou diferentes cargos nas principais instituições responsáveis pelas políticas públicas para o audiovisual e pelo financiamento do setor cinematográfico no Brasil
De forma didática e clara,
Vera consegue aproximar o conteúdo para diferentes públicos e ajudar aqueles que buscam se reciclar ou querem conhecer mais sobre a área. 

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